A incerteza e o regresso à anormalidade.

Por Daniela Sousa em

O pior já passou. A curva está neste momento, em sentido descendente e por isso, perspetivam-se momentos menos pesados para todos nós.

Vamos poder sair de casa para frequentar alguns dos espaços que frequentávamos antes, mas tudo será diferente. Nos transportes públicos será obrigatório colocar máscara e continuamos obrigados a manter o tão aclamado distanciamento social, em muitos casos incluíndo equipamentos físicos de protecção como paineis em acrílico, viseiras e luvas de proteção.

O Ser Humano passou nos últimos meses por uma das maiores provações de que há memória, tendo até alguns cidadãos comparado esta pandemia a uma guerra mundial.

De que forma vamos agora, após este período de quarentena, voluntária para uns, obrigatória para outros, voltar a abraçar os nossos avós, os nossos pais, os nossos sobrinhos e netos? Como vamos voltar a fazer aquelas pequenas coisas que davam sentido à nossa vida? Os jantares de amigos, os aniversários, os almoços de família a cada domingo. Como será a ceia de Natal este ano?

É certo que os hábitos e as vidas são diferentes para cada um de nós. Dirão alguns “muitas pessoas já viviam sozinhas sem nunca receberem visitas…”. É verdade. Mas a dimensão da solidão a que todos nós estamos confinados nunca foi tão significativa e tão abrangente.

Procuremos então o sentido da nossa vida.

Viktor E. Frankl, psicoterapeuta de profissão, escreveu o livro “O Homem em Busca de um Sentido”, livro que sintetiza os cerca de 20 volumes que desenvolveu, dando origem à chamada Logoterapia e Análise Existencial.

Viktor percebeu, dentro dos campos de concentração nazis de Auschwitz, que ao evocar a imagem da sua mulher grávida, conversar com ela como se ela estivesse ao seu lado e imaginar a sua vida quando conseguisse libertar-se da tirania nazi, atribuía de certa forma um “sentido” à sua vida, uma razão para ultrapassar todo aquele sofrimento.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a 2 de setembro de 1945, a sua esposa, também ela feita prisioneira do exército nazi, tinha falecido de esgotamento.

No entanto, o psicoterapeuta desenvolveu, em Auschwitz, uma verdadeira missão. O seu sonho de divulgar ao mundo a forma como conseguiu ultrapassar o sofrimento inimaginável por que passou concretizou-se e a sua experiência pessoal deu origem a uma tipologia de intervenção psicoterapêutica, que se provou muito eficaz em momentos em que o ser humano experiencia uma situação profundamente dramática na sua vida.

Quando vivemos com sentido, com um propósito é seguramente mais fácil sair de uma situação menos positiva como aquela que estamos e viver e, se disso formos capazes, sair dela ainda mais fortes e resilientes.

“Pode-se arrancar tudo do Homem, menos uma coisa, a última das liberdades humanas: a escolha da atitude pessoal diante das circunstâncias que vão definir o seu próprio caminho.” Viktor E. Frankl